Guia Tuta
Qual o melhor requeijão
Depende de quem provou, e de quando. Os testes de requeijão publicados nos últimos anos chegaram a vencedores diferentes — e um deles viu a própria lista virar de cabeça para baixo em menos de um ano, porque as marcas mudaram de fórmula. Este guia mostra o que cada teste disse, com data e método, e ensina a primeira coisa que vale conferir em qualquer pote: se ele é requeijão mesmo.
Primeiro: é requeijão mesmo?
No Brasil, "requeijão" é um nome protegido. Pela norma do Ministério da Agricultura (a Portaria nº 359, de 1997), requeijão é feito de massa coalhada de leite, fundida, com creme de leite, manteiga ou gordura do próprio leite. O nome é reservado a produtos em que a base láctea não tenha gordura nem proteína de outra origem — e amido não está entre os ingredientes permitidos.
A norma tem três tipos: requeijão, requeijão cremoso e requeijão de manteiga (também chamado requeijão do Norte). "Culinário", que aparece em bisnagas e baldes, não é um tipo legal: é um nome comercial, e pode estar num requeijão de verdade ou numa mistura.
Produto parecido com requeijão, mas com amido, precisa dizer isso no nome. Segundo o Ministério da Agricultura, ele deve se chamar "Mistura de Requeijão e Amido". Em 2023, uma operação do ministério em nove estados analisou 179 amostras e encontrou amido não declarado em 9 delas. O caso foi tratado como fraude econômica — pagar preço de requeijão por outra coisa —, e o próprio ministério disse que o amido não é um problema de saúde pública. O problema é o nome errado no rótulo.
Por anos, esses produtos também foram vendidos como "especialidade láctea", sem padrão de identidade próprio. Em 2006, o Idec já reclamava que o tipo real vinha em letras miúdas, enquanto "cremoso" aparecia em letras grandes.
A norma do requeijão cremoso está em revisão: em março de 2026, o Ministério da Agricultura abriu o processo para um regulamento novo, ainda sem texto publicado. Até lá, vale a de 1997.
Como ler o rótulo
1. O nome de venda. É a primeira coisa a procurar, na frente da embalagem. Só é requeijão se estiver escrito "Requeijão", "Requeijão Cremoso", "Requeijão de Manteiga" (ou "do Norte"), ou um desses nomes seguido de "com" e um ingrediente — "Requeijão Cremoso com Cheddar", por exemplo. Se estiver escrito "mistura", o produto tem outra coisa no lugar de parte do leite.
2. A lista de ingredientes. Os ingredientes aparecem do que tem mais para o que tem menos. Num requeijão, espere leite, creme de leite ou manteiga, e às vezes fermento lácteo, sal, leite em pó e sais emulsificantes (citratos, fosfatos), que dão a textura. Amido ou gordura vegetal na lista querem dizer que não é requeijão. Como diz o Idec, a lista de ingredientes é sempre mais confiável do que o que vem em destaque na frente.
3. A lupa. Desde 2022, alimentos com muito açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio levam na frente um selo com uma lupa e a palavra "alto em". Para alimentos sólidos, os limites são 6 g de gordura saturada, 600 mg de sódio e 15 g de açúcar adicionado a cada 100 g.
O requeijão não escapa dessa regra: a Anvisa não o considera um queijo, e por isso ele leva a lupa quando passa dos limites. No teste da Proteste de 2020, todos os requeijões cremosos avaliados tinham mais de 6 g de gordura saturada por 100 g — ou seja, passariam do limite. O sódio médio foi de 425 mg por 100 g, e uma das marcas passou de 600.
Um lembrete do Idec: a falta da lupa não quer dizer que o produto é saudável. Quer dizer só que ele não passou desses três limites.
4. "Light". É um termo regulado: o produto precisa ter pelo menos 25% menos gordura total (ou calorias, conforme o que o rótulo alegar) do que a versão tradicional da mesma marca. Não quer dizer "pouca gordura" — um light pode ter mais gordura que o tradicional de outra marca. Compare com o da mesma marca.
5. "Zero lactose". Também é regulado: até 100 mg de lactose a cada 100 g. "Sem lactose", "isento de lactose" e "0% lactose" querem dizer a mesma coisa.
6. A temperatura. Pela norma, requeijão deve ser conservado abaixo de 10 °C. Pote fora da geladeira do mercado é sinal para escolher outro.
O que os testes publicados disseram
Testes de sabor ajudam, mas cada um tem júri, método e data diferentes. Abaixo, os mais citados, do mais recente para o mais antigo, com o que cada um informou — e o que deixou de informar.
Estadão Paladar, 2025
Vinte e seis marcas de requeijão tradicional, provadas às cegas, em pratos numerados, por um júri de cinco pessoas, avaliando gosto, textura, cor e aroma. Ouro: Itambé. Prata: Tirolez. Bronze: D'Or. As outras 23 foram listadas em ordem alfabética, sem posição. O júri comentou que requeijão opaco costuma denunciar amido — uma percepção de sabor e textura, não uma análise de laboratório.
Ceia Clandestina, 2024
Vinte e duas marcas, num teste que o canal descreve como cego, sem informar quantas pessoas provaram nem as notas. 1º Polenghi, 2º Poços de Caldas, 3º Vigor.
Estadão Paladar, 2023
Doze marcas, avaliadas por um júri de cinco — entre eles, três queijistas — em aspecto, firmeza, aroma e sabor. O texto não diz se o teste foi às cegas. 1º Crioulo, 2º Aviação, 3º Poços de Caldas. As outras nove foram listadas em ordem alfabética.
Proteste, 2020
Treze requeijões cremosos, avaliados em laboratório credenciado — rotulagem, informação nutricional, higiene e composição — e provados por mais de 55 consumidores. É o teste mais completo da lista, mas o resultado por marca é exclusivo para associados, e por isso não aparece aqui.
Eles não concordam
O mesmo requeijão muda de lugar de um teste para outro. O Crioulo foi 1º no Paladar de 2023 e 20º na Ceia Clandestina de 2024. O Itambé ganhou ouro no Paladar de 2025 e ficou em 16º na Ceia de 2024. Nenhum dos dois testes está errado: mudaram o júri, o método, o ano — e, às vezes, o próprio produto.
Light: o ranking que virou em menos de um ano
No ranking de sabor de requeijão light que a Ceia Clandestina publicou para 2024, o pódio foi Poços de Caldas, Batavo e Polenghi.
Menos de um ano depois, em outubro de 2025, o canal refez o teste. Na descrição do vídeo, disse que 33% das marcas testadas tinham mudado de fórmula e publicou um ranking novo: o Poços de Caldas foi do 1º para o 21º lugar, e o Batavo, do 2º para o 22º. O novo pódio ficou com Dor, Polenghi e Tirol. O canal não disse quais marcas mudaram de fórmula — só quanto elas subiram ou caíram.
É o limite de todo teste: ele é uma foto. A embalagem continua igual, a receita não.
Então, qual escolher?
Não existe um requeijão melhor para todo mundo. Existe o que é requeijão de verdade — e isso o rótulo responde. E existe o que agrada você: mais cremoso, mais salgado, o que rende mais pelo preço.
Um caminho prático:
- Confira o nome de venda e os ingredientes. Se tiver "mistura", amido ou gordura vegetal, você está comparando outro produto.
- Se a gordura importa para você, compare a lupa e a tabela. E compare o light com o tradicional da mesma marca.
- Use os testes como pista, olhando a data. Um teste de três anos atrás pode estar falando de outra receita.
- Prove, e compare pelo que importa para você.
É exatamente essa última parte que o Tuta existe para fazer: comparar requeijões pela nota de quem comprou, por sabor, cremosidade e custo-benefício, com a nota refeita conforme chegam avaliações novas — e com rankings na sua cidade e por faixa etária. Um produto só entra no ranking com pelo menos três avaliações; veja como a nota é calculada. O app está em desenvolvimento, e ainda não há avaliações para mostrar: nenhum número desta página vem dele.
Como este guia foi feito
A pesquisa foi feita em 24 de setembro de 2026. A parte sobre o que é requeijão vem do texto das normas — a Portaria nº 359/1997, o Decreto nº 9.013/2017 e as regras de rotulagem da Anvisa. Os testes vêm do que cada um publicou: a página do teste, a reportagem ou a descrição do vídeo.
O que ficou de fora, e por quê:
- O vencedor do teste da Proteste, que só associados podem ver.
- Posições além do pódio nos testes do Estadão, que listou as demais marcas em ordem alfabética. Listas que circulam com essas posições não vêm do jornal.
- Quais marcas mudaram de fórmula, porque o canal que fez o teste de light não disse.
- Testes de 2005 e 2006, que falam de produtos que já mudaram.
Fontes
- Ministério da Agricultura, Portaria nº 359/1997, Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Requeijão: agricultura.gov.br
- Decreto nº 9.013/2017, arts. 366 e 394: planalto.gov.br
- Ministério da Agricultura, Nota Técnica nº 21/2026, revisão do regulamento do requeijão cremoso (31/03/2026): gov.br
- Terra/Estadão, operação do Ministério da Agricultura sobre amido em requeijão (11/05/2023): terra.com.br
- Idec, Revista nº 104, teste de requeijão e especialidade láctea (outubro de 2006): idec.org.br
- Anvisa, RDC nº 429/2020 e IN nº 75/2020, rotulagem nutricional: in.gov.br
- Anvisa, Perguntas e Respostas sobre Rotulagem Nutricional, pergunta 170 (junho de 2024): gov.br
- Anvisa, Perguntas e Respostas sobre Rotulagem de Lactose (maio de 2024): gov.br
- Idec, "Entenda a lupa": idec.org.br
- Idec, "Raio-x dos rótulos": idec.org.br
- Proteste, "Nova rotulagem de alimentos: fique por dentro" (26/10/2021), com os dados do teste de 2020: proteste.org.br
- Proteste, teste de requeijão cremoso: proteste.org.br
- Estadão Paladar, "Qual é o melhor requeijão de 2025?" (06/03/2025): estadao.com.br
- Estadão Paladar, "Qual o melhor requeijão do mercado" (26/01/2023): estadao.com.br
- Ceia Clandestina, "O melhor requeijão! 22 marcas teste cego" (20/05/2024): youtube.com
- Ceia Clandestina, ranking de requeijão light 2024 (07/01/2025): youtube.com
- Ceia Clandestina, "Experimentamos TODOS requeijões light" (18/10/2025): youtube.com

