Guia Tuta
Qual o melhor protetor solar
Depende do que você chama de melhor — e, antes disso, de o frasco entregar o que promete. O número do FPS no rótulo é medido em laboratório, com uma quantidade de produto que pouca gente usa, e os testes independentes feitos no Brasil já encontraram protetores abaixo do que dizia a embalagem. Este guia mostra o que a Anvisa exige de um protetor solar, o que cada palavra do rótulo quer dizer, o que os testes publicados encontraram, com data e método, e o que conferir antes de comprar.
Uma coisa antes: este guia fala de rótulo e de norma, não de dermatologia. Pele sensível, alergia, acne, manchas, doença de pele, tratamento, gestação e protetor para criança pequena são conversa para ter com o dermatologista ou com o pediatra.
Primeiro: é protetor solar mesmo?
Quem regula protetor solar no Brasil é a Anvisa. A regra é a RDC nº 629, de 2022, em vigor desde 1º de abril de 2022. Ela substituiu a RDC nº 30/2012, que ainda aparece citada em muitos textos, e incorporou uma resolução do Mercosul de 2011.
Pela norma, protetor solar é o cosmético feito com a finalidade exclusiva ou principal de proteger a pele e os lábios contra a radiação UVB e UVA. Para usar esse nome, ele precisa cumprir três exigências ao mesmo tempo:
- FPS de no mínimo 6;
- proteção UVA de pelo menos um terço do FPS do rótulo — um FPS 30 precisa ter proteção UVA de 10 ou mais;
- comprimento de onda crítico de no mínimo 370 nm, uma medida de laboratório de quão larga é a faixa de raios UV coberta.
E existe o produto multifuncional: base, hidratante, batom ou maquiagem com FPS, em que a proteção solar é um benefício a mais, e não a finalidade principal. Ele pode anunciar FPS a partir de 2, mas o rótulo é obrigado a trazer a frase "Este produto não é um protetor solar". Se essa frase estiver na embalagem, a norma não trata o produto como protetor.
O mesmo vale para ativador de bronzeado, que tem de avisar que não é protetor solar, e para autobronzeador, que tem de avisar que não protege contra a ação do sol.
O registro
Protetor solar não é um cosmético qualquer para a Anvisa. Pela RDC nº 907, de 2024, que reúne as regras de regularização de cosméticos, protetor solar e protetor solar infantil estão na pequena lista de produtos sujeitos a registro: a empresa precisa apresentar os dados técnicos e só pode vender depois que o registro sai no Diário Oficial. A maioria dos cosméticos, como xampu e hidratante comum, só é comunicada à agência.
O que isso significa na embalagem: a norma obriga o rótulo a trazer o número do processo de regularização do produto, o número da autorização de funcionamento (AFE) e o CNPJ da empresa titular, o país de origem, o lote, a validade e a composição.
Protetor sem registro é produto irregular, e a Anvisa já agiu contra vários (veja abaixo).
Como ler o rótulo
1. O FPS. É obrigatório, em destaque, como número inteiro precedido de "FPS" ou de "Fator de Proteção Solar". O número vem de teste em voluntários: a norma só aceita método in vivo. O FPS é a razão entre a dose de UV que avermelha a pele protegida e a dose que avermelha a mesma pele sem protetor.
2. A categoria de proteção. Também obrigatória. A norma define quatro:
| Categoria no rótulo | FPS medido |
|---|---|
| Baixa proteção | 6 a 14,9 |
| Média proteção | 15 a 29,9 |
| Alta proteção | 30 a 50 |
| Proteção muito alta | acima de 50 e abaixo de 100 |
A mesma tabela traz frases opcionais sobre a pele ("pele muito sensível a queimadura solar", por exemplo). A exigência de UVA, de um terço do FPS, vale para todas as categorias.
3. A proteção UVA. A norma exige, mas não obriga um símbolo de UVA no rótulo. "UVA/UVB" na frente da embalagem é comum, mas a regra de um terço vale para todo protetor, com ou sem o destaque. Alguns rótulos trazem "PPD" com um número: PPD é o nome do método in vivo que a norma aceita para medir a proteção UVA, pelo escurecimento persistente da pele.
4. As advertências. Todo protetor solar tem de trazer estas frases, definidas pela norma:
- "É necessária a reaplicação do produto para manter a sua efetividade";
- "Ajuda a prevenir as queimaduras solares";
- "Para crianças menores de 6 (seis) meses, consultar um médico";
- "Este produto não oferece nenhuma proteção contra insolação";
- "Evite exposição prolongada das crianças ao sol";
- "Aplique abundantemente antes da exposição ao sol";
- "Reaplicar sempre, após sudorese intensa, nadar ou banhar-se, secar-se com toalha e durante a exposição ao sol";
- "Se a quantidade aplicada não for adequada, o nível de proteção será significativamente reduzido".
Se o fabricante definir um tempo de espera antes do sol ou um intervalo de reaplicação, isso também tem de estar escrito.
5. A composição. Os filtros vêm na lista de ingredientes, com o nome técnico internacional (INCI). Só podem ser usados os filtros da lista da Anvisa, a RDC nº 600, de 2022, que traz 36 substâncias, cada uma com concentração máxima. Uma delas, a benzofenona-3, obriga o rótulo a avisar "contém Benzophenone-3" quando passa de 0,5%.
Palavras que o rótulo não pode usar
A norma proíbe qualquer alegação que sugira:
- 100% de proteção contra a radiação UV, ou "efeito antissolar";
- que dá para não reaplicar o produto, em qualquer situação;
- proteção total ou bloqueio da radiação solar.
Por isso você não deve encontrar "bloqueador solar" num rótulo brasileiro. O Idec registrou em 2012, quando a regra entrou, que ficou "proibido denominar qualquer produto como bloqueador solar ou divulgar 100% de proteção". Nos Estados Unidos, a FDA também classifica "sunblock", "waterproof" (à prova d'água) e "sweatproof" (à prova de suor) como alegações falsas ou enganosas.
"Bloqueador" ainda aparece na fala do dia a dia e em textos de saúde, às vezes como apelido do filtro mineral. No rótulo, não.
Resistente à água
"À prova d'água" não está entre as alegações que a norma permite. As que ela permite são quatro: "Resistente à água", "Muito resistente à água", "Resistente à água/suor" e "Resistente à água/transpiração". E só podem aparecer se forem comprovadas em teste, por um de dois métodos que a norma indica: o da FDA americana ou o guia europeu de 2005.
O que os testes medem:
- Na regra americana atual, o voluntário passa 40 minutos (resistente) ou 80 minutos (muito resistente) em atividade moderada na água, em blocos de 20 minutos com pausas, e o FPS é medido depois disso.
- No guia europeu, segundo a descrição do laboratório de testes GBA, também são 40 e 80 minutos, e o produto passa se mantiver pelo menos 50% do FPS medido antes da água.
Ou seja: resistente à água não quer dizer que a proteção fica igual depois do mergulho. E a própria norma manda escrever no rótulo que é preciso reaplicar depois de nadar e de secar com toalha.
Filtro químico e filtro físico
É a distinção mais repetida em propaganda de protetor. A norma não usa esses termos: ela define protetor solar como o produto que protege "absorvendo, dispersando ou refletindo a radiação", e lista os filtros permitidos sem separá-los em grupos.
Em texto da BBC News Brasil republicado pela Sociedade Brasileira de Dermatologia em 2019, a regra geral é descrita assim: os filtros orgânicos, chamados de químicos, absorvem a radiação; os inorgânicos, ou minerais, refletem — e "hoje se sabe que os inorgânicos também absorvem os raios UV". Os dois inorgânicos da lista da Anvisa são o dióxido de titânio e o óxido de zinco, cada um com limite de 25% na fórmula.
Qual tipo usar em cada pele, em criança ou na gestação é pergunta para o dermatologista ou para o pediatra.
O FPS do rótulo e o FPS na sua pele
O número do rótulo vem de um teste com uma quantidade definida de produto: 2 miligramas por centímetro quadrado de pele. É o que manda a regra americana, e o que descrevem o dermatologista Sérgio Schalka, da Sociedade Brasileira de Dermatologia, à Folha em 2014, e um estudo publicado nos Anais Brasileiros de Dermatologia em 2025.
A norma brasileira reconhece o problema no próprio rótulo: uma das frases obrigatórias é "Se a quantidade aplicada não for adequada, o nível de proteção será significativamente reduzido". A Sociedade Brasileira de Dermatologia diz que "a maioria das pessoas usa menos do que deveria", e recomenda a "regra da colher de chá", criada no Consenso Brasileiro de Fotoproteção de 2013: uma colher de chá para o rosto, uma para a cabeça e uma para o pescoço; duas para o tronco e duas para as costas.
O estudo de 2025, com 177 voluntários, dá uma medida prática: os autores calculam que um frasco de 40 g de protetor facial, usado na quantidade do teste, duraria cerca de 30 dias. Entre os voluntários, 58,75% disseram que o frasco dura de 1 a 3 meses, e 25,42%, de 4 a 12 meses.
Na hora de comparar dois protetores, isso quer dizer uma coisa: o FPS do rótulo só vale entre produtos testados do mesmo jeito. Ele não diz quanto você está protegido com a quantidade que você passa.
O que o governo encontrou
Estas são as ações oficiais recentes que encontramos, com o que cada uma disse. Os nomes dos produtos estão nas fontes.
14 de julho de 2025. A Anvisa determinou o recolhimento de cosméticos de duas empresas. Entre eles, um protetor solar que não tinha registro. A agência explicou que produtos de proteção solar "devem ser registrados na Anvisa" e que o registro é a via "utilizada para produtos de maior risco".
4 de setembro de 2025. Segundo o jornal O Tempo, a Anvisa suspendeu a venda e mandou recolher todos os lotes de um protetor solar sem registro sanitário. A empresa disse ao jornal que o produto era de uma linha descontinuada e citou a resolução como RE nº 3.398.
29 de abril de 2026. Pela Resolução RE nº 1.743/2026, a Anvisa proibiu a fabricação, a venda e o uso de dois protetores solares e quatro repelentes de uma mesma fabricante, e mandou recolhê-los. Uma inspeção feita de 14 a 17 de abril encontrou produtos fabricados com fórmula diferente da autorizada e descumprimento das boas práticas de fabricação. A orientação da agência a quem tem um dos produtos é procurar o SAC da empresa, que está no rótulo.
A ressalva: essas decisões valem para produtos, lotes e empresas específicos, não para toda a categoria nem para outras linhas da mesma marca.
O que os testes publicados disseram
Testes de laboratório de protetor solar com resultado público no Brasil são poucos e antigos. Todos abaixo são da Proteste, e os produtos podem ter mudado desde então.
Proteste, 2018 — protetores corporais FPS 30
Oito protetores corporais, todos com FPS 30 no rótulo, segundo o comunicado de imprensa de 12/11/2018. O laboratório conferiu o FPS e a proteção UVA, e 30 voluntárias usaram os produtos em frascos disfarçados e avaliaram aroma, textura, absorção, facilidade de espalhar e o tom da pele depois. A proteção UVA ficou entre 15,8 e 22,3 em todos — acima do mínimo de 10 para um FPS 30. Um produto mediu FPS 24,4, 18,7% abaixo do rótulo, e a Proteste pediu à Anvisa que o rótulo passasse de FPS 30 para 20. Melhores do teste: L'Oréal e Vichy. Na época, o mais barato custava mais de R$ 40 a menos que o mais caro, com mais produto no frasco.
Proteste, 2016 — protetores faciais
Dez protetores faciais levados ao laboratório. Cinco não entregaram o FPS do rótulo, e um tinha 42% a menos de proteção que o indicado. Um deles também foi considerado ruim em UVA: tinha proteção de 26% do FPS, abaixo dos 33% exigidos. Algumas marcas conseguiram liminar na Justiça para suspender a divulgação. A Sociedade Brasileira de Dermatologia contestou os resultados, e a Proteste os reafirmou. No comunicado de 05/12/2016, a associação apontou Nivea Sun FPS 60, Cenoura & Bronze FPS 50 e Natura FPS 60 como opções de boa qualidade.
Proteste, 2014 — protetores em spray
Segundo a Folha de S.Paulo, dez protetores em spray, todos vendidos como FPS 30, mediram entre 13,1 e 22,8 — todos abaixo do rótulo. O FPS foi medido in vivo, com cerca de dez voluntários por marca, e a proteção UVA, in vitro. Duas marcas foram consideradas ruins em UVA. A associação da indústria (Abihpec) e os fabricantes contestaram: disseram que spray exige cuidados específicos no teste e que tinham estudos comprovando o FPS. A Proteste disse que tomou esses cuidados.
Uma margem que não está na norma
Nos testes de 2016 e 2018, a Proteste escreveu que a metodologia aceita pela Anvisa tolera uma diferença de até 17% entre o FPS medido e o do rótulo. Essa margem não aparece no texto da RDC nº 629/2022; se existir, está nos métodos internacionais a que a norma remete, que não conseguimos abrir.
Então, qual escolher?
Não existe um protetor melhor para todo mundo. Existe o que é protetor solar de verdade, com registro e rótulo em ordem — e isso dá para conferir no mercado. E existe o que você consegue usar na quantidade certa: textura, cheiro, frasco, preço.
Um caminho prático:
- Confira se é protetor solar. Se o rótulo diz "Este produto não é um protetor solar", é um multifuncional, como base ou hidratante com FPS.
- Procure o número do processo, a AFE e o CNPJ. São obrigatórios. Desconfie de produto sem esses dados, principalmente em venda online.
- Leia o FPS junto com a categoria. A partir de 30 é "alta proteção". A Sociedade Brasileira de Dermatologia recomenda FPS de 30 ou mais; para a sua pele, a conversa é com o dermatologista.
- Para piscina e mar, procure "resistente à água" ou "muito resistente à água" — e lembre que mesmo esses pedem reaplicação.
- Desconfie de "bloqueador", "proteção total" e "à prova d'água". Não são termos permitidos num protetor vendido no Brasil.
- Use os testes como pista, olhando o ano. O mais recente é de 2018.
- Para criança, gestação ou pele com problema, pergunte ao médico. O próprio rótulo manda consultar um médico para bebês com menos de 6 meses.
A parte que os testes não medem — se a textura agrada, se o frasco rende, se vale o preço — só a nota de quem comprou responde. O Tuta ainda não tem protetor solar no catálogo: o app começa com 21 categorias de mercado, e o protetor solar não está entre elas. Se entrar, a comparação segue a mesma conta das outras; veja como a nota é calculada. O app está em desenvolvimento, e nenhum número desta página vem dele.
Como este guia foi feito
A pesquisa foi feita em 25 de setembro de 2026. As regras vêm do texto das normas da Anvisa — a RDC nº 629/2022, sobre protetores solares; a RDC nº 907/2024, sobre regularização e rotulagem de cosméticos; e a RDC nº 600/2022, a lista de filtros — lidas no sistema de legislação da própria agência, que as marca como vigentes. Os detalhes dos testes de resistência à água e da quantidade aplicada vêm da regra da FDA e de uma descrição do guia europeu, porque a norma brasileira remete a esses métodos. As ações da Anvisa vêm dos comunicados da agência e, em um caso, da imprensa. Os testes vêm do que a Proteste publicou e do que a imprensa noticiou.
O que ficou de fora, e por quê:
- Os nomes dos produtos proibidos e recolhidos. As decisões valem para produtos, lotes e empresas específicos. Os comunicados estão nas fontes.
- Uma proibição de outubro de 2025 (RE nº 4.028, de um protetor com cor vendido pela internet sem registro), que só encontramos em um site de notícias, sem comunicado oficial.
- O texto do guia europeu de resistência à água e do método de FPS internacional, que não são públicos; usamos a descrição de um laboratório de testes e a regra da FDA.
- Quanto o FPS cai com menos produto. Circulam números, mas não encontramos uma fonte oficial brasileira que os dê.
- Recomendação de filtro por tipo de pele, para criança, para gestante ou para quem tem doença de pele. É decisão clínica.
- Os resultados completos da Proteste, lote a lote e com todos os nomes, que ficam para associados, e o teste de 2009, que fala de produtos e de uma norma que já mudaram.
- Testes de outros países, como os da DECO Proteste, de Portugal: avaliam produtos e fórmulas do mercado europeu.
- Testes do Idec e do Inmetro de protetor solar, que não encontramos.
- A consulta de registro no site da Anvisa, que não conseguimos abrir durante a pesquisa.
Fontes
- Anvisa, RDC nº 629/2022, protetores solares e produtos multifuncionais (10/03/2022): anvisalegis.datalegis.net
- Anvisa, RDC nº 907/2024, classificação, rotulagem e regularização de cosméticos (19/09/2024): anvisalegis.datalegis.net
- Anvisa, RDC nº 600/2022, lista de filtros ultravioletas permitidos (09/02/2022): anvisalegis.datalegis.net
- FDA, 21 CFR 201.327, rotulagem e testes de protetores solares vendidos sem receita (texto vigente): ecfr.gov
- GBA Group, "Regulations regarding water resistance testing of sunscreens" (sem data): gba-group-cosmetics.com
- Anvisa, "Anvisa determina o recolhimento de produtos cosméticos sem registro de duas empresas" (14/07/2025): gov.br
- O Tempo, "Anvisa suspende vendas de protetor solar sem registro; saiba qual" (04/09/2025): otempo.com.br
- Anvisa, "Anvisa proíbe protetores solares e repelentes" (29/04/2026): gov.br
- Idec, "Filtro solar sempre! Anvisa estipula que rótulos ensinem como utilizar o produto" (12/12/2012): idec.org.br
- Sociedade Brasileira de Dermatologia, "O que já se sabe sobre a eficácia do filtro solar na prevenção do câncer da pele", texto da BBC News Brasil (29/07/2019): sbd.org.br
- Anais Brasileiros de Dermatologia, Cruz e colaboradores, "Avaliação da aplicação de protetores solares faciais pela população: abordagem além da quantidade do produto" (2025, v. 100, n. 1): anaisdedermatologia.org.br
- Proteste, "PROTESTE testa filtros solares e indica o melhor custo benefício para o consumidor" (12/11/2018): proteste.org.br
- Proteste, "Compare e descubra o melhor protetor solar para sua pele e para o seu bolso" (24/10/2018): proteste.org.br
- Proteste, "PROTESTE constata protetor solar facial com quase metade da proteção prometida" (28/11/2016): proteste.org.br
- Proteste, "Esclarecimentos da PROTESTE sobre o teste de protetor solar" (05/12/2016): proteste.org.br
- CRF-PR, "Protetores solares em spray têm FPS mais baixo que o declarado, segundo Proteste", com texto da Folha de S.Paulo (10/01/2014): crf-pr.org.br

