Guia Tuta
Qual a melhor ração para cachorro
Depende do que você chama de melhor, e de qual cachorro vai comer. Não existe ração que seja a melhor para todo cão, e a palavra "premium" na embalagem não quer dizer o que parece. O que existe é o rótulo, que a lei obriga a trazer bastante coisa, e alguns testes de laboratório publicados, com data e método. Este guia mostra o que a norma chama de ração, o que o rótulo tem de dizer, o que os testes encontraram e o que aconteceu no caso dos petiscos contaminados de 2022.
Antes de tudo: este guia fala de escolher entre produtos no mercado. Doença, alergia, dieta de tratamento, quanto dar para emagrecer e o que dar a um filhote de raça grande ou a um cão idoso são conversa para ter com o veterinário.
Primeiro: é ração completa mesmo?
Ração de cachorro é assunto do Ministério da Agricultura, não da Anvisa. A regra geral é o Decreto nº 12.031, de 2024, em vigor desde 8 de julho de 2024; ele revogou o regulamento anterior, de 2007. Para cães e gatos, vale também a Instrução Normativa nº 30, de 2009, que trata do rótulo e do registro dos alimentos para animais de companhia.
A instrução normativa separa os produtos em tipos, e o tipo tem de estar no rótulo:
- Alimento completo é a ração do dia a dia. Pela norma, é o produto "capaz de atender integralmente" às exigências nutricionais do animal.
- Alimento específico é o nome legal do petisco: bifinho, biscoito, palitinho. Serve de "agrado, prêmio ou recompensa" e não é alimento completo. O rótulo tem de trazer "este produto não substitui o alimento completo".
- Produto mastigável é o osso ou a tira para roer, feito de subproduto animal, com "valor nutricional desprezível".
- Alimento coadjuvante é a dieta para animal com distúrbio fisiológico ou metabólico. O rótulo traz, em destaque, "alimento sob orientação profissional" e avisa que o produto não substitui o tratamento convencional.
A diferença entre eles aparece no registro. A ração comum, o petisco e o mastigável são isentos de registro: a fórmula e o rótulo são aprovados pelo responsável técnico da própria fábrica, e o rótulo diz "Produto isento de registro no Ministério da Agricultura". Quem precisa estar registrada é a fábrica. Já o coadjuvante precisa de registro, e a empresa tem de apresentar ao ministério documentos que comprovem eficácia e segurança.
A associação mundial de veterinários de pequenos animais (WSAVA) recomenda que alimentos que não são completos, como os petiscos, sejam só uma pequena parte da dieta: 10% ou menos.
Standard, premium, super premium
Não têm definição legal. Nem o decreto nem a instrução normativa usam essas palavras. A Proteste, no teste de 2022, escreveu que as classes comerciais "não trazem parâmetros legais" e que não são determinadas pela legislação. O Conselho Federal de Medicina Veterinária, em reportagem da Itatiaia de janeiro de 2026, disse que a categoria "não é uma classificação oficial", ainda que reflita diferenças de formulação. A WSAVA chama "premium" de termo não regulamentado, de pouco valor prático para avaliar um alimento.
Cada marca usa a palavra do seu jeito. No próprio teste da Proteste, uma ração se apresentava como "premium", outra como "premium especial" e outra como "high premium". O que se compara de verdade está no verso da embalagem.
Como ler o rótulo
1. Tipo, espécie e fase. O rótulo tem de dizer o tipo de produto (completo, específico, coadjuvante) e a espécie, a categoria e a fase a que se destina. Se diz "alimento completo para cães adultos", é isso que ele promete.
2. Os níveis de garantia. É a tabela obrigatória, com:
| Item | O que o rótulo garante |
|---|---|
| Umidade | no máximo |
| Proteína bruta | no mínimo |
| Extrato etéreo (gordura) | no mínimo |
| Matéria fibrosa | no máximo |
| Matéria mineral | no máximo |
| Cálcio | no mínimo e no máximo |
| Fósforo | no mínimo |
São limites, não o teor exato. "Proteína bruta, mínimo 22%" quer dizer pelo menos isso. Vitaminas e microminerais adicionados aparecem num campo à parte, chamado enriquecimento.
3. A tabela de consumo. A norma obriga o rótulo de todo alimento a indicar a quantidade, ou a faixa estimada de consumo. É por isso que toda ração traz a tabela de gramas por peso do cão. É um ponto de partida; a quantidade certa para o seu cão é conversa com o veterinário.
4. A lista de ingredientes. A norma pede a composição, mas não exige ordem por quantidade. Ela ainda permite um campo de "eventuais substitutivos": ingredientes que podem entrar no lugar de outros, de lote para lote. O conselho de "olhar o primeiro ingrediente" vem de regras de outros países.
5. Sabor e ingrediente em destaque. Se a embalagem destaca um ingrediente, ele tem de estar na composição e o rótulo tem de dizer quanto dele entra, em percentual. Se a foto mostra carne, mas o sabor vem de subproduto ou de aromatizante, é obrigatória a frase "imagem meramente ilustrativa".
6. Alegação de saúde. Ração comum não pode prometer tratamento, prevenção ou cura. Isso só é permitido ao alimento coadjuvante. Propriedade nutricional ou funcional só pode aparecer quando comprovada.
7. Quem fabrica. Nome, endereço, CNPJ e telefone de atendimento são obrigatórios. Se a ração é feita por terceiros, o rótulo diz "Fabricado por" e "Para". Vem também o carimbo circular com o número de registro da fábrica no ministério.
8. Lote e validade. São obrigatórios. Quando o fabricante define um prazo depois de aberto, o rótulo traz "depois de aberto, consumir em … dias". A data de fabricação saiu da lista do decreto de 2024; o próprio ministério diz que ela ficou facultativa.
9. Calorias. Não estão entre as garantias obrigatórias no Brasil. Segundo a WSAVA, só os Estados Unidos exigem calorias no rótulo. Quando não aparecem, pergunte ao fabricante.
10. Ração a granel. Pode ser vendida, mas o rótulo tem de dizer "Produto a Granel", e as informações vão na nota fiscal.
Porte e fase da vida
A norma obriga a dizer a fase a que a ração se destina, mas não define o que é filhote, adulto ou sênior, nem o que é porte pequeno, médio ou grande. Não há faixa de peso nem idade na lei. Cada marca define as suas, e elas não precisam coincidir: confira no rótulo o peso e a idade que aquela ração indica.
As diretrizes veterinárias americanas (AAHA, 2019) mostram por que a idade não é fixa. Para elas, o cão é filhote do nascimento até o fim do crescimento rápido, por volta dos 6 a 9 meses, conforme a raça e o porte. Sênior é o último quarto da expectativa de vida, que também depende da raça e do porte; as diretrizes nem propõem idades fixas para as fases mais tardias.
A WSAVA lembra que as referências europeias e americanas separam as necessidades por fase (reprodução, crescimento e adulto) e que uma ração "para todas as fases" é formulada para crescimento e reprodução. Qual fase e qual porte servem para o seu cão, em especial filhote de raça grande ou cão idoso, é pergunta para o veterinário.
O caso dos petiscos de 2022
Em 2022, cães morreram depois de comer petiscos contaminados. O que se sabe, pelos comunicados oficiais:
2 de setembro de 2022. O Ministério da Agricultura interditou uma fábrica em Guarulhos (SP) e determinou o recolhimento nacional de todos os lotes da empresa. Segundo informação preliminar da Polícia Civil de Minas Gerais citada pelo ministério, eram nove cães mortos até então.
5 de setembro de 2022. A Polícia Civil mineira já falava em cerca de 40 cães mortos no país, segundo o Estado de Minas, e a suspeita, por um laudo da UFMG, era de etilenoglicol, substância proibida em alimento.
17 de setembro de 2022. O ministério mandou outras três empresas recolherem lotes de petiscos. As investigações mostraram que lotes adulterados de propilenoglicol (um aditivo permitido) tinham sido usados na fabricação.
21 de setembro de 2022. A Anvisa alertou as empresas que tivessem comprado dois lotes contaminados de propilenoglicol, de um mesmo fornecedor, para que não os usassem nem os vendessem, e para evitar que chegassem a alimentos para pessoas.
Novembro de 2022. Em nota, o ministério concluiu que a causa foi monoetilenoglicol identificado por engano como propilenoglicol. Fez cerca de 120 fiscalizações, determinou o recolhimento de produtos de seis empresas de petiscos e identificou cinco fornecedoras de propilenoglicol. Todas tiveram de recolher e destruir os produtos.
Duas coisas para guardar. Primeiro: os recolhimentos foram de petiscos, não de ração completa. Segundo: as medidas valeram para lotes e empresas específicas. Os nomes estão nos comunicados, nas fontes. Hoje, a lei exige que toda fábrica tenha um programa de recolhimento de lotes.
Um limite novo: aflatoxinas
Desde 1º de julho de 2026, alimento para cães e gatos tem limite legal para aflatoxinas, toxinas de fungo que podem aparecer em grãos: 10 µg/kg de aflatoxina B1 e 20 µg/kg de aflatoxinas totais, pela Portaria SDA nº 1.412/2025 do Ministério da Agricultura. Produto acima disso é considerado impróprio para consumo animal.
O que os testes publicados disseram
Encontramos dois testes de laboratório com marcas nomeadas e resultado aberto, ambos da Proteste. Os dois usaram referências europeias, porque, como a própria Proteste registrou, o Brasil não tem norma com níveis adequados de nutrientes para ração. Os resultados valem para os lotes testados, e fórmulas mudam.
Proteste, 2022 — 11 rações secas para cão adulto
Lotes de 11 marcas de ração seca para cão adulto, escolhidas pela participação no mercado e compradas em lojas comuns, analisados em laboratório credenciado pelo Ministério da Agricultura. A referência foi o guia nutricional da federação europeia da indústria (FEDIAF, 2021). Foram avaliados qualidade nutricional, digestibilidade da proteína, matéria-prima, contaminação por salmonela e aflatoxinas, e se o rótulo batia com a análise.
Melhor do teste: Royal Canin, vendida como super premium. Escolha certa, pelo custo-benefício: Baw Waw, que se apresenta como premium. Todos os lotes estavam livres de salmonela e de aflatoxinas, e todos os rótulos estavam de acordo com a legislação. Só uma ração teve qualidade média; as outras ficaram entre boa e excelente. Duas não chegaram aos 18% de proteína que a referência europeia pede.
O dado que mais surpreendeu a Proteste: das três rações que traziam "premium" em alguma forma na embalagem, duas ficaram abaixo dos 80% de digestibilidade da proteína que a referência considera aceitável. A melhor das três nesse ponto foi a Baw Waw, com 88,13%. A Proteste não fez análise separada por classe comercial.
Proteste, 2017 — 15 rações secas, adulto e filhote
Dez rações para cão adulto e cinco para filhote, com referência na mesma federação europeia. Foram avaliados proteína e digestibilidade, gordura, fibras, cálcio, fósforo, zinco, energia, matéria-prima, metais e rótulo. Das 15, a Proteste disse que só oito tinham, de fato, boa qualidade.
Melhor do teste para adulto: Pro Plan, a mais cara por quilo. Com boa qualidade e preço menor, a Proteste apontou a Golden, que custava R$ 26 a menos por quilo na época. Para filhote: Dog Chow, melhor do teste e melhor custo-benefício. Nenhuma marca teve contaminação por metais. O teste tem nove anos.
O que não é teste
As listas de "melhores rações" que aparecem na busca, em geral, são de lojas ou de sites que ganham comissão por venda, e não descrevem análise nenhuma. Estudos acadêmicos que analisam rações em laboratório costumam deixar as marcas anônimas.
Como trocar de ração
Devagar. O Conselho Regional de Medicina Veterinária do Rio de Janeiro recomenda fazer a troca em cerca de sete dias, aumentando aos poucos a proporção da ração nova misturada à antiga, para o sistema digestivo se adaptar.
Então, qual escolher?
Não existe a melhor ração para todo cachorro. Existe a que é alimento completo para a fase dele, a que ele come bem e a que cabe no seu bolso. Um caminho prático:
- Confira se é "alimento completo" e para que fase e porte ele diz servir. Petisco não substitui ração.
- Leia os níveis de garantia, e compare rações pelo verso, não pela palavra "premium".
- Desconfie de promessa de cura. Ração comum não pode fazer alegação de tratamento; dieta para doença é coadjuvante, com orientação do veterinário.
- Veja quem fabrica, com CNPJ e telefone, e confira lote e validade.
- Use os testes como pista, olhando a data. O mais recente com resultado aberto é de 2022.
- Observe o seu cão. Só ele diz se come.
É essa última parte que o Tuta existe para fazer. No app, ração para cães é avaliada pelo que só quem tem cachorro sabe: aceitação (o cão come?) e odor, além de custo-benefício e embalagem, com rankings na sua cidade. Veja como a nota é calculada. O app está em desenvolvimento, e ainda não há avaliações para mostrar: nenhum número desta página vem dele.
Como este guia foi feito
A pesquisa foi feita em 25 de setembro de 2026. As regras vêm do texto do Decreto nº 12.031/2024, da Instrução Normativa nº 30/2009, do documento de perguntas e respostas do Ministério da Agricultura sobre o decreto e da Portaria SDA nº 1.412/2025, conhecida pelos conselhos de medicina veterinária. O caso de 2022 vem dos comunicados do Ministério da Agricultura, lidos em cópias arquivadas porque os sites do governo estavam fora do ar durante o período eleitoral, e do alerta da Anvisa, pela Agência Brasil. Os testes vêm do que a Proteste publicou. As fases da vida vêm de diretrizes veterinárias internacionais.
O que ficou de fora, e por quê:
- Os nomes das empresas e dos produtos recolhidos em 2022. Os recolhimentos valeram para lotes e empresas específicas; os comunicados estão nas fontes.
- O número final de cães mortos em 2022. Os números da imprensa e da polícia mudaram ao longo da investigação, e não encontramos um balanço oficial final.
- As marcas com pior resultado nos testes da Proteste. São resultados de 2017 e 2022, de lotes específicos; estão nas fontes.
- Um teor mínimo legal de proteína para ração de cão. Circula na internet, mas não encontramos a norma que o fixe. O único número com fonte aqui é o da referência europeia usada pela Proteste.
- Rações sem grãos, rações naturais e alimentação caseira. São escolhas de dieta, com questões de saúde que cabem ao veterinário.
- Quantidade de ração por peso e por idade, e rações para raças específicas. Dependem do cão e do fabricante, e são decisão clínica.
- Uma divergência no teste de 2017. O comunicado de imprensa da Proteste cita uma marca diferente como a melhor para filhote; seguimos a reportagem do próprio teste e a outra página da Proteste sobre ele, que concordam entre si.
Fontes
- Presidência da República, Decreto nº 12.031, alimentação animal (28/05/2024): planalto.gov.br
- Ministério da Agricultura, Instrução Normativa nº 30/2009, com as alterações de 2020: gov.br
- Ministério da Agricultura, Perguntas e Respostas sobre o Decreto nº 12.031/2024 (2024): gov.br
- CRMV-AL, "Mapa regulamenta limites de micotoxinas em alimentos para cães e gatos" (14/11/2025): crmv-al.org.br
- CRMV-ES, "Mapa regulamenta limites de micotoxinas em alimentos para cães e gatos": crmves.org.br
- Ministério da Agricultura, "Mapa interdita fábrica e determina recolhimento de produtos para alimentação animal suspeitos de contaminação" (02/09/2022), cópia arquivada: web.archive.org
- Ministério da Agricultura, "Mapa determina recolhimento de lotes de produtos para alimentação animal de outras três empresas" (17/09/2022), cópia arquivada: web.archive.org
- Agência Brasil, "Anvisa reforça alerta de recolhimento de petiscos caninos intoxicados" (21/09/2022): agenciabrasil.ebc.com.br
- Ministério da Agricultura, "Mapa atualiza investigações sobre contaminação de petiscos para animais" (novembro de 2022), cópia arquivada em 22/11/2022: web.archive.org
- Estado de Minas, "Polícia Civil confirma mortes de cerca de 40 cães após ingestão de petiscos" (05/09/2022): em.com.br
- Proteste, "Como escolher a melhor ração para o seu cachorro" (08/07/2022, atualizada em 26/05/2023): proteste.org.br
- Proteste, "Ração: como fizemos o teste": proteste.org.br
- Proteste, "Rações para cães: nem todas vão nutrir bem o seu melhor amigo" (28/08/2017): proteste.org.br
- Proteste, "Qual é a melhor ração para o meu cachorro?": proteste.org.br
- Proteste, "PROTESTE avalia 15 marcas de ração para cães" (11/09/2017): proteste.org.br
- Itatiaia, "Vale a pena pagar mais? Saiba a diferença entre ração standard, premium e super premium" (09/01/2026): itatiaia.com.br
- WSAVA, Guidelines on Selecting Pet Foods (10/03/2021): wsava.org
- AAHA, 2019 Canine Life Stage Guidelines (2019): aaha.org
- CRMV-RJ, "Transição alimentar" (21/11/2024): crmvrj.org.br

